Neurociênciencia, tomada de decisões e a responsabilidade dos CEOs em tragédias

Nossos sentidos e capacidades mentais são todos recursos escassos. A neurociência estuda, entre outra coisas, o funcionamento da mente. A economia é a ciência que estuda como administrar recursos escassos. A área conhecida como neuroeconomia estuda como a neurociência explica os processos neurobiológicos, subjacentes à tomada de decisões.

A tomada de decisão é uma função de um grupo conhecido como funções executivas. As funções executivas estão relacionadas a circuitos neurais complexos, que têm boa parte de suas conexões na região anterior do cérebro, conhecida como lobo frontal. Logo, tomar boas decisões se relaciona fortemente, em testes neuropsicológicos, com um bom funcionamento das funções executivas. Vários estudos neuropsicológicos, demonstram que executivos do alto escalão das empresas, como os CEOs, apresentam resultados de alta performance nos testes que avaliam as funções executivas. Mas será que somente um bom funcionamento cerebral, do líder máximo de uma empresa, é capaz de garantir as melhores decisões?

Um dos sistemas filosóficos mais fantásticos, o estoicismo, tinha como elemento central do seu pensamento, saber o que de fato na vida podemos mudar e o que não podemos mudar. Sobre quais acontecimentos da vida temos verdadeiro controle?

Epicteto foi um dos principais pensadores estoicos e, num trecho do seu pensamento, ele divaga sobre qual seria a principal tarefa da vida:

“A principal tarefa da vida está em identificar e separar questões, de modo que eu possa dizer claramente para mim, quais são externas, fora do meu controle, e quais têm a ver com as escolhas sobre as quais eu, de fato, tenho controle.

Onde, então eu devo buscar o bem e o mal?

Não em externos incontroláveis, mas dentro de mim mesmo, nas escolhas que são minhas”.

Entre os problemas mais comuns no funcionamento do nosso cérebro está o autoengano. O autoengano frequentemente nos leva a apontar o dedo e procurar culpados externos para nossos problemas.

A neurociência nos mostra que mudar crenças é muito mais fácil que mudar comportamentos aprendidos. Nas crenças não gastamos energia agindo sobre aquilo que está sobre o nosso controle. O cérebro tende a sempre que possível poupar energia. Exemplificando esse problema: o que é mais fácil, planejarmos o início de uma dieta para a próxima semana ou começarmos agora mesmo? Levantarmos da cadeira e procurarmos emprego ou culparmos a crise econômica? Culpar o CEO por problemas graves ocorridos nas empresas ou entender que em atividades de alto risco, como na indústria da mineração, por exemplo, geralmente os acidentes ocorrem por uma cadeia de erros, que envolvem múltiplas pessoas da corporação, e não por um culpado isolado? A cadeia de erros interligados explica, outrossim, boa parte dos acidentes aéreos, e também explica erros que causam danos a pacientes no sistema de saúde do mundo inteiro.

Algumas maneiras por que esses erros ocorrem são bem conhecidas pela neurociência:

efeito de ancoragem é um viés cognitivo que descreve a tendência humana para se basear, ou “ancorar” a tomada de decisão, em uma informação ou parte da informação recebida anteriormente.

O efeito de exposição contínua que é outro desses erros que gera a ilusão de familiaridade; temos a tendência a preferir o que nos é familiar. Somos resistentes a mudanças.

O viés de confirmação é outra maneira de tomarmos decisões inadequadas, quando colocamos nossa convicção sobre um determinado assunto e fazemos a leitura dos fatos; é a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais. É um tipo de viés cognitivo e um erro de raciocínio indutivo. As pessoas demonstram esse viés quando reúnem ou se lembram de informações de forma seletiva, ou quando as interpretam de forma tendenciosa. Tal efeito é mais forte em questões de grande carga emocional e em crenças profundamente arraigadas.

Os conceitos de memórias tendenciosas foram propostos para explicar a polarização de atitudes, quando uma divergência se torna mais extrema, mesmo que as diferentes partes sejam expostas à mesma evidência. As crenças persistentes são crenças que persistem mesmo após várias evidências demonstrando que são falsas.

O efeito irracional do “Prime” demonstra uma maior confiança nas informações encontradas primeiramente, antes de uma série de outras informações.

Temos ainda correlação ilusória, quando falsas associações entre dois eventos ou situações são identificadas.

No momento que vivemos hoje, com as famosas fake news, é muito fácil nos tornarmos reféns desses exemplos de irracionalidade. Temos que nos policiar constantemente para não cairmos nessas armadilhas da mente. Dessa forma, não parece racional culparmos os CEOs como responsáveis isolados por acidentes gravíssimos como o ocorrido na cidade de Brumadinho ou no CT do Flamengo.

*Sobre o autor: Rodrigo Massaud é médico Neurologista pela Universidade Federal de São Paulo UNIFESP, membro da Academia Brasileira de Neurologia e tem MBA em gestão de Saúde pelo INSPER.

Texto original Instituto liberal