Aparentemente a resposta é não. Digo isso a partir do próprio ambiente de “produção intelectual”, qual seja, a área de Ciências Humanas de uma grande universidade brasileira. Neste ambiente, assim como em boa parte do mundo, o marxismo deixou de ser apenas um apanhado teórico para se tornar cosmovisão dominante que afeta praticamente todas as […]

Aparentemente a resposta é não. Digo isso a partir do próprio ambiente de “produção intelectual”, qual seja, a área de Ciências Humanas de uma grande universidade brasileira. Neste ambiente, assim como em boa parte do mundo, o marxismo deixou de ser apenas um apanhado teórico para se tornar cosmovisão dominante que afeta praticamente todas as áreas da vida de quem optou por abraçá-lo acriticamente e até mesmo aqueles que, mesmo sem saber, pautam suas vidas pelas lentes do marxismo.

Como se sabe, o ensino no Brasil está imerso, de cabo-a-rabo, no oceano de filosofias influenciadas pelo marxismo. Não que o marxismo nada tenha a acrescentar. O problema é a imposição e a crença de que somente o marxismo possui autoridade hermenêutica para a explicação da sociedade e de suas relações, subjugando todas as outras disciplinas acadêmicas ao seu crivo interpretativo.

Desde as fenomenologias e hermenêuticas contemporâneas até uma “simples aula” de Filosofia Antiga são dadas a partir da ótica marxista do materialismo dialético, bem como da luta de classes. O marxismo, portanto, é um “divisor de águas” que influenciou e influencia os filósofos posteriores a ele, bem como é a base hermenêutica de grande parte dos professores para entender e explicar todos os filósofos predecessores a Marx remontando até mesmo aos escritos dos pré-socráticos.

Para se ter ideia de como isso ocorre, alguns professores chegam a explicar Platão e Aristóteles a partir do materialismo dialético e não a partir do próprio arcabouço teórico destes grandes nomes da Filosofia Antiga. Ao pedirem licença pelo anacronismo intencional, lançam pérolas como a de que Platão era um “proto-comunista” ou de que a metafísica para Aristóteles era apenas descritiva, ou seja, uma tentativa de dizer que a metafísica estava mais para uma construção do intelecto humano a partir das coisas relativas à sua própria experiência no mundo.

Como se sabe, grande parte do sucesso desse ambiente nebuloso regado a alguma vertente requentada de marxismo se deve, dentre outras correntes, ao Gramscismo e a Escola de Frankfurt. O resultado disso é que grandes personagens da filosofia moderna até os dias atuais, como Edmund Burk, Alexis de Tocqueville, Eric Voegelin, Ayn Rand, Raymond Aron, G. K. Chesterton, Thomas Sowell, Michael Oakeshott, Russel Kirk, Roger Scruton, Alvin Plantinga, Mario Ferreira dos Santos, Adam Smith, John Locke, Blaise Pascal, entre outros, são praticamente banidos da grade dos cursos de humanas nas universidades.

Contudo, para quem vive a vida acadêmica, fora da bolha de escritos influenciados pela cosmovisão marxista, a resposta para o enunciado deste texto é um altissonante sim. Há vida inteligente fora do marxismo! Apesar do monopólio do discurso acadêmico ser da ala influenciada pelo marxismo, qualquer aluno que fizer um esforço crítico para colocar o marxismo à prova verá que o seu castelo de areia marxista não se sustenta frente ao simples vento da realidade concreta cotidiana.

Diante disso alguém pode se perguntar: Mas, o ambiente acadêmico não é um ambiente plural de fomento de ideias para a construção do saber? Infelizmente a resposta é um sonoro não!

Por que isso ocorre? Pelo simples fato de teorias e filosofias como as dos filósofos citados acima não passarem no crivo sacrossanto do marxismo e de suas variantes. Muitos desses filósofos são tidos como “profanos” e suas obras fazem parte do index librorum prohibitorum do establishment operado pelos intelectuais marxistas e simpatizantes.

É uma pena, pois, bons professores seguem expondo suas aulas com apenas um modo de ver e de pensar a filosofia, qual seja, o modo das lentes de Marx e de seus corolários. Os alunos em sua maioria assistem passivos a estas aulas sem qualquer questionamento, uma vez que foram anestesiados no ensino médio através do endeusamento do socialismo e da demonização do capitalismo.

O mais interessante de tudo isso é que há uma ala menos radical do marxismo na academia que, de fato, possui boas intenções e acredita piamente que suas visões e ações contribuirão para salvar o mundo, inclusive, através da ação direta de um Estado assistencialista.

Sobre isso, Lyle H. Rossiter, autor de The liberal mind (traduzido no Brasil como A mente esquerdista) explica que “os argumentos esquerdistas benignos, mas errôneos, a favor de um Estado assistencialista, são vistos como um reflexo dos instintos de criação e cuidado humanos e das inclinações naturais ao altruísmo, que fazem dos seres humanos criaturas sociais […] assumindo ingenuamente que as liberdades do indivíduo podem ser preservadas se a sociedade for mais ‘cuidadora’, mesmo sob a mão pesada do governo”.

Já o militante radical de esquerda, continua dr. Rossiter, em contraste, “pretende muito mais do que isso: um Estado autoritário organizado sob princípios socialistas e governado por elites da esquerda. Este ideal utópico sacrifica as bênçãos tangíveis da liberdade ordenada pelos benefícios ilusórios do Estado assistencialista”. Ao olhar sempre para um futuro idealizado (nunca para um passado de tentativas desgraçadas e sangrentas de implementação de suas teorias falidas), o radical de esquerda não somente desconsidera as injustiças do tempo presente, como comete injustiças das mais hediondas possíveis, cegado pelo bem escatológico que visa apressar com suas ações revolucionárias.

Infelizmente, é muito tênue a linha entre a boa intenção de intelectuais marxistas engajados e a violência imposta pela ala radical da esquerda. Enquanto a classe acadêmica formada em sua maioria por intelectuais de esquerda, deixar de olhar para os maus exemplos históricos decorrentes das filosofias que fundamentam a sua atuação, e focar em representantes da direita ou do “neoliberalismo” como bichos-papões da democracia, certamente teremos ainda muita seletividade dos conteúdos acadêmicos.

Dito isto, voltamos ao enunciado inicial: existe vida inteligente fora do marxismo? Certamente que sim. As teorias e propostas marxistas acerca da economia e de transformação histórico-social, respectivamente, já foram refutadas por vários economistas e filósofos conservadores-liberais desde o século passado.

Apesar disso, é incrível como a academia ainda é tomada por um profundo e generalizado sentimento religioso de viés marxista. Encerro dizendo que, para curar esse dogmatismo, bastaria apenas a leitura dos escritos de Raymond Aron contra a religião dos intelectuais de sua época, L’opium des intellectuels, para que, parafraseando Kant, qualquer marxista contemporâneo acordasse do seu sono dogmático.

Sobre o autor: Jocinei Godoy é formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista Independente de Campinas-SP; estudante de Filosofia na PUC-Campinas-SP; e Sócio da Evolução Consultoria. 

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Texto original Instituto liberal