Dicionários e um guarda-chuva quebrado

Em 2012, o procurador Cléber Eustáquio Neves, do Ministério Público Federal de Uberlândia, considerou ofensiva uma das acepções para “cigano” no dicionário Houaiss e ajuizou uma ação para que um daqueles a quem nós, os burros, chamamos de pai fosse retirado de circulação e pagasse R$200 mil por danos morais coletivos. Língua é mais do que dicionário e, ao contrário do que diz o senso comum, ele é submetido por ela. Não sou linguista, sou formada em Linguística, o que não é suficiente para me fazer linguista, e me lembro das aulas de Lexicografia e Lexicologia, na USP, em que a grande e querida mestra Maria Aparecida Barbosa esclarecia que os lexicógrafos coletam, na fala viva – aquela em uso, vivificada pelo falante –, o conjunto lexicológico que povoa o dicionário.

A Lexicografia, belíssima ciência rigorosa e complexa com epistemologia e objeto próprios, não inventa nem impõe o léxico: ela se restringe – sem ser pouco – à sua revelação encarcerada e inerte na exatidão frígida do dicionário. Um linguista que preste está consciente de que é preciso tirar as palavras dessa assepsia e sujá-las com o humano, deixando-as livres na língua para, só então, avaliar a adequação e inadequação delas. Cléber não é linguista, não tem obrigação de saber disso, bastaria bom senso para deixar o Houaiss sossegado, mas ele, o bom senso, é o primeiro a se exilar quando o politicamente correto coloniza as almas dos intolerantes do bem. Felizmente, esse assédio não mais à expressão do pensamento, mas ao próprio pensamento, surgiu depois da invenção do humor, do sexo, do amor e da literatura ou seríamos uma espécie ainda mais tristonha no que temos de tristonho. Uma cerca que interdita as palavras, nascidas para a liberdade do uso ou para o uso que as liberta do, justamente, dicionário.

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Há quase três meses, o TRF1 considerou o Houaiss inocente. Dicionários são inocentes, não por presunção: sua inocência comprova-se e é premeditada pelos falantes que fazem da língua esplendor ou sepultura (né, Bilac?), pelas palavras livres em seu voo nas asas de cera da semântica e do contexto e pela mera convenção que associa significante e significado (né, Saussure?); mas Cléber acha que o falante é livre por culpa do Houaiss. Mas por que diabos só o Houaiss? Cléber ficaria horrorizado com o que dizem as más-línguas no Aurélio, no Caldas Aulete, no Michaelis, no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (editado em Portugal, mas, rompidas as fronteiras do ridículo, não seriam as geográficas a deter Cléber). E por que diabos cismou com “cigano”? Tantas outras denominações no dicionário poderiam se enquadrar nessa metafísica troncha do politicamente correto…

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Por obrigação profissional, preciso ter um português escorreito, mas há erros que adoro cometer e o meu preferido que deveria ser anistiado de tão doce é “quer namorar comigo?”. “Quer namorar comigo?” tem aquela ternura da geleia sobre o queijo. Como uma coisa dessas poderia estar errada? Talvez Cléber saiba, esse procurador que não achou mais nada para fazer num país com muito mais ladrão do que ciganos. Deve andar com um dicionário debaixo do braço para o caso de topar com algum criminoso. Acabei me lembrando da piada que Guimarães Rosa gostava de contar sobre o homem sempre acompanhado de um guarda-chuva todo quebrado e rasgado. Para quê?, perguntaram-lhe. Para o caso de não chover.

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*Vânia Cavalcanti de Almeida é revisora, foi secretária executiva, professora da rede pública e integrou assessoria de políticos cujas funções não tinham perfil político-partidário. Bacharel em Linguística e Língua Portuguesa, Congressos e Palestras para Professores de Português para Estrangeiros  e Linguística e Ensino do Português como Segunda Língua – Ciclo de Palestras, na USP.

Texto original Instituto liberal